Chegada a Hora da Cirurgia

Antes de relatar a experiência dos meus momentos um pouco antes e após a cirurgia, eu vou compartilhar duas imagens do meu exame de radiografia contrastada, também chamado de esofagograma (ou EED), com vocês.

Muitos ainda não conseguem entender muito bem a doença da acalasia e, mostrando algumas imagens, acho que ficará muito mais fácil de entender.

Esofagograma Baritado – Foto 1
Esofagograma Baritado – Foto 2

Essas foram as primeiras imagens, assim que eu dei os primeiros goles do contraste. D√° para perceber que o l√≠quido ficou totalmente represado no es√īfago e a esf√≠ncter esof√°gica inferior (EEI) est√° totalmente bloqueada. O contraste n√£o descia para o est√īmago.

Pelas imagens, tamb√©m √© poss√≠vel ver que o es√īfago j√° est√° dilatado, consequ√™ncia t√≠pica da doen√ßa. Esses foram os primeiros goles do contraste. Se eu bebesse todo o l√≠quido do copo, certamente n√£o conseguiria continuar fazendo o exame.

O exame √© bem simples, como j√° dito anteriormente, mas bem demorado. A cada poucos goles, depois de uma sess√£o de radiografias, eu tinha que descer da mesa e caminhar, esperar um pouco para descer o contraste para o est√īmago e depois come√ßar novamente tomando outros poucos goles, tirando mais radiografias em √Ęngulos diferentes.

Como diz a express√£o popular: “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Agora ficou bem mais f√°cil de entender a acalasia.

Retomando o texto anterior, lembro-me com muitos detalhes do dia 16 de janeiro de 2019 Рo dia da minha internação no hospital. Estranhamente, eu estava bem calmo.

Fomos ao hospital, eu, minha esposa, minha mãe, meu pai e minha irmã. Já havia, na véspera, preparado minha mala com poucas coisas, pois já contava que eu fosse sair do hospital, com alta, já no dia seguinte da cirurgia. Otimista ao extremo!

O médico, no dia do agendamento da cirurgia, disse que a alta esperada para este tipo de cirurgia é de até 3 dias. Então, já estava contando que sairia rapidinho do hospital.

Fui internado, ent√£o, no dia 16/01/2019. L√° conheci outros pacientes em outros leitos com situa√ß√Ķes bem mais preocupantes do que a minha. Eram senhores idosos com problemas s√©rios gastrointestinais.

Nesse momento, percebi que eu era um privilegiado, que apesar de ser o mais novo do quarto, o meu problema era remediável. Que, apesar dos sintomas terríveis da acalasia, há tratamento, mesmo não havendo a cura.

Eu, minha esposa, minha mãe e meu pai começamos então a conversar com os outros pacientes e, assim, ficamos um bom tempo de bate-papo, com cada um contando a sua história.

A noite chegou, eu j√° havia recebido todas as instru√ß√Ķes da equipe m√©dica de que deveria acordar cedo e j√° estar preparado, com banho tomado, √†s 06:30h do dia seguinte (17/01/2019).

A madrugada foi bastante longa, foi difícil pegar no sono. Quando eu estava quase dormindo, a enfermeira entrou no quarto para colocar o acesso e o soro, além de tirar sangue (no outro braço) para realização de exames de tipagem sanguínea e outros.

A partir daí consegui dormir muito pouco, acho que consegui dormir das 03:00h às 06:00h, quando levantei para tomar banho e vestir o avental para a cirurgia. Mas não estava com sono e, com a anestesia, teria bastante tempo de descanso.

Depois de sair do banho, encontrei minha esposa já no quarto. Ela tinha acabado de chegar ao hospital. Esperamos mais um pouquinho, quando chegou o enfermeiro com a maca e o cobertor para me levar à sala de cirurgia.

Eu estava muito calmo. Não sei o que aconteceu comigo. Acho que depois de conviver tantos dias com essa doença ingrata, eu estava, finalmente, a poucas horas de me livrar de alguns de seus sintomas. Seria um alívio. Estava feliz.

Minha esposa foi me acompanhando, ao lado da maca, at√© a entrada do corredor que acessaria a sala de espera para entrada no centro cir√ļrgico. Visivelmente preocupada e nervosa, me despedi (momentaneamente) dela, vendo-a com l√°grimas no olhos. Ela estava copiosamente chorando de preocupa√ß√£o.

Chegando na sala de espera, pude ver a imensa quantidade de pessoas que também seriam submetidas a uma cirurgia naquele dia. Mas todos os pacientes muito bem assistidos pelos médicos e enfermeiros que adentravam na sala.

Fui recepcionado pelo médico anestesista, que se apresentou e me perguntou se eu estava bem, se eu estava tranquilo e pronto para ficar bom. Muito simpático!

Aguardei mais uns minutinhos e depois fui para a sala de cirurgia. Entrando na sala de cirurgia, confesso que fiquei muito surpreso, positivamente. Uma sala muito ampla, totalmente reformada, com muitos equipamentos novos e tudo muito organizado.

Fiquei maravilhado com a resolução do monitor que seria usado na videolaparoscopia. Não pude resistir e fiquei olhando para a resolução da imagem quando ligaram o equipamento. Eu via detalhes no monitor que, provavelmente, não veria a olho nu, mesmo estando bem próximo.

Fiquei deitado sobre um colchão de ar aquecido, que era uma delícia. A sala era um gelo, muito fria, mas com o colchão de ar quente, mesmo acordado, antes da anestesia, estava muito confortável.

Minha cirurgia durou cerca de três horas, entrei na sala de cirurgia às 08:00h, aproximadamente, e voltei para o quarto por volta das 16:00h. Demorei bastante para acordar e, enquanto isso, minha esposa e minha mãe estavam aflitas no corredor me esperando voltar, só informadas quando eram lançados os boletins médicos.

Depois no quarto, voltei para o soro e para os remédios aplicados diretamente na veia, pelo acesso. Acho que foram: anti-inflamatório, dipirona, bromoprida e Zofram (para enjoo). No primeiro dia no quarto, eu ainda tinha poucas dores nos pontos, mas sem mal-estar e nem enjoo.

O pós operatório, nos primeiros dias, foi super tranquilo. Só tenho a agradecer! Não tive enjoos, nem náuseas e nem um outro problema relevante.

Tem tamanho P ?! √Č que eu emagreci “um pouquinho” …

Claro que, quando sa√≠ da cirurgia, a sensa√ß√£o, na primeira vez que eu fiquei em p√©, foi que estava tudo solto dentro de mim. Desconfio que eram os gases que foram injetados dentro da cavidade abdominal para melhorar a visualiza√ß√£o do procedimento cir√ļrgico.

Tamb√©m sentia um pouco de dor nos ombros, curiosamente. Segundo a explica√ß√£o do m√©dico, √© que os gases injetados no abd√īmen, ao se aquecerem dentro do corpo, subiam para a regi√£o dos ombros. Mas a dor n√£o era forte, bem suport√°vel.

Fui operado no dia 17/01/2019, uma quinta-feira, e já tive alta no dia 19/01/2019, no sábado, depois do almoço. Foi tudo muito tranquilo e sem nenhum trauma, apenas alguns desconfortos, mas poucas dores, já que eu estava medicado.

Lembro-me que durante uma visita da equipe m√©dica, na manh√£ do dia seguinte √† cirurgia, o m√©dico chefe pediu para que eu bebesse um copo d¬ī√°gua. Na hora eu fiquei bastante nervoso. Ele pediu para encher o copo e aquilo era muita √°gua para eu beber de uma vez.

Antes da cirurgia só conseguia beber em goles pequenos, engasgando e sufocando com frequência. Já havia mais de 7 meses que eu não bebia tanta água de uma só vez.

Mas, encorajado pelo médico e parte de sua equipe que tinha mais outros 4 médicos me olhando beber a água, tomei o primeiro gole. Depois outro, e mais outro e não senti nada. Até que virei o restante da água do copo em minha boca e engoli.

Eu não acreditava no que estava acontecendo. Foi maravilhoso. Eu tinha engolido toda a água do copo. Não foi tudo de uma vez só, mas foi bem mais rápido e confortável do que eu costumava beber.

Foi uma sensa√ß√£o deliciosa. S√≥ n√£o foi melhor do que beber √°gua bem gelada, um tempo depois, e sentir todo o trajeto da √°gua geladinha descendo at√© o est√īmago, sem travar. Quanto tempo que eu n√£o sentia isso!!

Beber água gelada e ou tomar sorvete era muito bom durante a recuperação, me fazia valorizar como é bom não sentir mais os sintomas da acalasia.

Durante o p√≥s operat√≥rio, mais ou menos at√© o 30¬ļ dia, eu ainda sentia inc√īmodo com os pontos (principalmente durante os primeiros 15 dias), tamb√©m senti dores fortes no peito, que irradiavam para as costas, pesco√ßo e chegavam at√© os dentes. Acredito que eram dores reflexas dos espasmos, que de vez em quando apareciam.

Também fiquei pelo menos 20 dias sem poder comer nada sólido durante o pós operatório. Em dieta líquida Рdurante os primeiros 10 dias Рe em dieta pastosa, durante os outros 10 dias.

Eu comia sopas, gelatinas, vitaminas e comidas batidas e processadas como: legumes, verduras, feij√£o e f√≠gado de boi. Todas as refei√ß√Ķes foram preparadas com muito carinho pela minha sogra e por minha m√£e. Ent√£o, √© claro, estavam uma del√≠cia!

Confesso que depois de um tempo ficou um pouco cansativo comer refei√ß√Ķes sempre com a mesma consist√™ncia, mas a cada dia que passava eu me sentia melhor. Sentia que estava tudo bem e que a recupera√ß√£o estava evoluindo normalmente.

Eu j√° conseguia engolir melhor sem passar por aquelas situa√ß√Ķes de travamento, dor, ang√ļstia e sensa√ß√£o de sufocamento. Claro que eu ainda teria que comer bem devagar, colocando pouca quantidade de comida de cada vez na boca e comendo sempre com muita calma e sem pressa.

Ali√°s, comer devagar e em poucas quantidades s√£o recomenda√ß√Ķes m√©dicas para o resto da vida de um acalasiano. Independentemente da EEI n√£o estar mais bloqueando a passagem de l√≠quidos e s√≥lidos, a acalasia debilitou todo o peristaltismo (motilidade) do meu es√īfago. Agora a comida desce por gravidade, somente.

Portanto, o movimento de descida do alimento √© bem mais lento, o que me for√ßa a comer mais devagar, em poucas quantidades de cada vez para n√£o embolar a comida no es√īfago. Mas ainda bem que existe a gravidade!

Outro dia fiquei pensando no que aconteceria com um astronauta que, durante a carreira, tivesse acalasia. N√£o ia dar muito certo, mesmo operado e com a EEI desbloqueada, sem ou com pouca gravidade a comida continuaria parada no es√īfago! Agradeci por n√£o ser um astronauta… rs.

Houston, We have a problem. A comida entalou!! O que eu faço??

Enfim, valeu muito a pena ter feito a cirurgia. Hoje estou no 38¬ļ dia do p√≥s operat√≥rio e estou me sentindo muito bem. Quase n√£o tenho mais os espasmos e dores reflexas. Os pontos est√£o praticamente fechados externamente e, acho que estou come√ßando a ganhar mais peso.

Quando saí da cirurgia, logo nos primeiros dias, perdi mais uns 5 quilos, aproximadamente. Cheguei no piso de 60 kg. Antes da acalasia eu tinha 80 kg, estava até um pouco acima do peso, pois tenho 1,78m de altura.

Mas agora j√° estou com 62 kg e, com calma, vou recuperar mais algum peso. Como tenho que comer sempre devagar, acabo me saciando muito r√°pido e penso que isto tem dificultado no ganho de peso, mas sem pressa.

O importante é que cada dia que passa eu sinto melhor os resultados da cirurgia e tenho menos dificuldade de comer e beber. Minha vida está voltando ao normal e eu estou mais feliz.

Para quem tem curiosidade de ver como é uma Cirurgia de Cardiomiotomia à Heller com Fundoplicatura. Tem um um vídeo bem ilustrativo para ajudar a entender melhor. Mas quem tem problemas em assistir cirurgias, ver sangue, etc. sugiro que não assista, por favor.

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